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A Burocracia Weberiana: vantagens e desvantagens

O tema a ser tratado neste breve estudo diz respeito ao conceito de Burocracia segundo Max Weber e as suas principais características como modelo de gestão pública.

Pretende-se, inicialmente, abordar os modelos de gestão pública e a sua evolução para o tipo de domínio racional-legal (burocrático). Em seguida pretende-se indicar quais os pressupostos e causas da burocracia e, posteriormente, todas as características deste modelo tal como apontadas por Max Weber e o que cada uma delas significa.

Em continuação, serão abordadas as vantagens visadas pelo modelo burocrático weberiano, em virtude da impessoalidade, especialização e calculabilidade dos resultados da atuação burocrática. Também serão abordadas algumas críticas do modelo burocrático e os fatores que levam à burocratização que nada mais é do que a degeneração e desvirtuamento da burocracia. Ao final, será apresentada a conclusão de que os mesmos requisitos que promovem a eficiência da burocracia weberiana talvez possam contribuir para a sua própria disfunção.


Os modelos de gestão pública

O tema em análise passou a ter grande relevância jurídica com o advento da Emenda Constitucional nº 19/1998 (Reforma Administrativa) que positivou a eficiência como princípio norteador da Administração Pública no caput do artigo 37 da Constituição Federal. Isto redundou na possibilidade de enquadramento da conduta do Estado como antijurídica, quando evidenciada a sua ineficiência. Por isso, a pertinência do estudo sobre os modelos de gestão. E Max Weber foi quem abordou o tema sobre a constituição de uma administração burocrática em um Estado Moderno, de forma mais aprofundada. Para ele, a burocracia tornou viável o desenvolvimento do capitalismo, porque este exigia modelos bem definidos de organizações, cujo funcionamento é uma manifestação da racionalidade capitalista, com funções combinadas e especializadas.

Para Weber, por sua vez, o capitalismo moderno não é “irracional”; suas instituições lhe parecem, na verdade, como a materialização mesma da racionalidade. Como um tipo de burocracia, a grande empresa só encontra rival na burocracia estatal, na promoção da eficiência racional, continuidade de operação, rapidez, precisão e cálculo dos resultados. Tudo isso se desenrola dentro de instituições administradas racionalmente e nas quais funções combinadas e especializadas ocupam o centro da atenção.

Max Weber, ao tratar dos modelos de gestão ou tipos de domínio, fez uma distinção entre “domínio legítimo” e “não legítimo”. E, dentro da ideia de “domínio legítimo” haveria a seguinte subdivisão: a) domínio carismático; domínio tradicional e c) modelo legal-burocrático que serão abordados a seguir.


Domínio Carismático

A legitimidade do domínio carismático decorre da ideia de que o líder tem poderes e qualidades excepcionais. Como decorrência disso, o aparelho administrativo é composto por discípulos, ou seja, indivíduos escolhidos pelo chefe entre os membros da comunidade carismática e que por ele cultivam devoção afetiva. Há aqui uma relação pessoal, autoritária e dominadora. Esse domínio só existe enquanto houver essa devoção pelos discípulos. É a situação do líder auto-indicado, que tem o “dom da graça”, seguido por discípulos que estão em desgraça.

Este primeiro conceito analisa a existência dos líderes, cuja autoridade se baseia, não no caráter sagrado de uma tradição nem da legalidade ou racionalidade de uma função, mas num dom, isto é, na capacidade extraordinária que eles possuem. Estes dons excepcionais se impõem como tais no anúncio e realização de uma missão de caráter religioso, político, bélico, filantrópico, etc. aqueles que reconhecem este dom, reconhecem igualmente o dever de seguir o chefe carismático, a quem obedecem segundo as regras que ele dita, em virtude da própria credibilidade do Carisma e não em virtude de pressões ou de cálculo. Nesse tipo podemos verificar as seguintes situações: a dominação do profeta, a do herói guerreiro e a do grande demagogo.

Mas Weber também alertou sobre a instabilidade do líder carismático, uma vez que o herói não tem a sua autoridade como uma decorrência de códigos ou estatutos, muito menos do costume ou do poder patrimonial. A dominação carismática significa uma rejeição de todos os laços com qualquer ordem externa, em favor da glorificação exclusiva da mentalidade genuína do profeta e herói. Daí, sua atitude ser revolucionária e transpor todos os valores; faz que um soberano rompa todas as normas tradicionais ou racionais: “Está escrito, mas eu vos digo”. Para que ele mantenha a sua autoridade deve constantemente provar a sua força na vida. Noutras palavras, o profeta deve realizar milagres; se quer ser um senhor da guerra, deve realizar feitos heróicos. Deve, em suma, provar que é, de fato, detentor de um dom especial. Sem isso, o carisma some.


Domínio tradicional

O domínio tradicional tem a sua legitimidade decorrente da crença em regras e poderes antigos, tradicionais, considerados imutáveis. Há aqui o senhor (quem ordena) e os súditos (obedecem). Nesse tipo de domínio há uma área fincada na tradição e outra fincada no arbítrio do patriarca, que age de acordo com a sua simpatia ou antipatia (pontos de vista pessoais). O quadro administrativo é composto por dependentes pessoais (nepotismo), amigos favoritos ou pessoas ligadas ao patriarca por vínculos de fidelidade ou vassalagem. Não há direito formal contra o arbítrio do senhor e os bens da administração pertencem a ele. O patrimonialismo é visto por Weber como um sistema no qual os funcionários não são admitidos em bases contratuais, mas são escravos ou clientes de quem detém o poder, sendo recompensados com benefícios em dinheiro ou em espécie (natureza). As funções administrativas são distribuídas com base na tradição ou no arbítrio do soberano, sendo “todos os meios de administração considerados partes do patrimônio pessoal do detentor do poder”. Neste domínio as funções administrativas não são distribuídas a agentes com base em critérios impessoais e racionais, mas como dito no trecho acima, são atribuídas com fundamento na tradição ou ao nuto do líder. Não há diferenciação entre a pessoa que exerce a função e o cargo que ela ocupa e as funções administrativas não são exercidas de forma continuada. Weber denomina esta época de “pré-burocrática”.


Domínio legal-burocrático (ou racional-legal)

No domínio racional-legal a regra abstrata estabelecida de forma impessoal é o que pauta a atuação de quem ordena e exerce função administrativa. Aqui as regras de competência são determinadas com base numa utilidade objetiva e especialização das atividades. Este é o modelo burocrático que busca afastar da Administração Pública as relações pessoais e a inexistência de controles. É a concepção adequada aos valores do direito público e seus princípios. Importante mencionar que para Weber “nada é mais eficiente e mais preciso do que o controle burocrático”, sendo este controle inevitável na administração pública, nas grandes empresas capitalistas e nas máquinas partidárias politicamente eficientes. Para ele, a burocracia representa um modelo de gestão eficiente, na medida em que se baseia no cálculo dos resultados. Vistos os tipos de modelo de gestão, passa-se a dissecar as principais características da burocracia na visão weberiana.


Pressupostos ou Causas da Burocracia

A formação da estrutura racional e eficiente estudada por Weber teve, segundo ele, alguns pressupostos, tendo sido o desenvolvimento de uma economia monetária um dos mais relevantes. Isto porque, como se verá adiante, é pressuposto básico da estrutura burocrática o pagamento de salário aos funcionários que são contratados para o desempenho da função administrativa. Com efeito, ele salientou que “Uma certa medida de economia monetária desenvolvida é a precondição normal para a existência, inalterada e permanente, se não para a criação, de administrações burocráticas puras.”

Isto porque a ausência de uma economia monetária torna a estrutura burocrática frágil e sujeita a mudanças internas substanciais, porquanto é ínsito ao modelo burocrático a existência de uma renda fixa e estável que garanta o seu funcionamento. E esta renda pode ser obtida pelos lucros privados no caso das grandes empresas, ou então, pela cobrança de tributos quando se tratar da Administração Pública. Evidentemente, somente uma economia plenamente desenvolvida no aspecto monetário é que apresentará um arrimo forte para a implantação de um sistema tributário que, por conseguinte, garantirá a própria existência e manutenção da máquina burocrática.

Isso significa que o sistema capitalista teve um papel de grande relevância e fomentou acentuadamente o desenvolvimento da burocracia. Weber salientou, inclusive, que sem o incremento da burocracia o sistema capitalista de produção não poderia subsistir e que o seu desenvolvimento “sob os auspícios do capitalismo, criou a necessidade de uma administração estável, rigorosa, intensiva e incalculável.” Do ponto de vista fiscal, como já dito acima, é inegável que o capitalismo constitui a base econômica mais racional para a administração burocrática, uma vez que este sistema de produção fornece-lhe os recursos monetários necessários à sua sobrevivência e incremento.

Além disso, é importante salientar que somente quando são desenvolvidas quantitativamente tarefas tipicamente administrativas é que haverá um terreno fértil para a implantação de uma estrutura burocrática. Ou seja, à medida que aumentam as atribuições administrativas de uma estrutura qualquer, mais se fará presente o modelo racional-legal. Para Weber, “o grande Estado moderno é absolutamente dependente de uma base burocrática. Quanto maior é o Estado e principalmente quanto mais é, ou tende a ser, uma grande potência, tanto mais incondicionalmente isso ocorre.”

Mas o mero aumento quantitativo das atribuições administrativas não basta. A formação da estrutura burocrática, em verdade, está muito mais atrelada às modificações qualitativas das tarefas administrativas, assim como pelo desdobramento interno destas mesmas tarefas. Weber aponta três fatores para isso: a) fatores exclusivamente políticos, tais como: “a crescente exigência a uma sociedade habituada à pacificação absoluta, por meio da aplicação da ordem e da proteção (‘polícia’) em todos os campos” é fator que leva à formação da estrutura burocrática; as múltiplas tarefas inerentes ao welfare state ou Estado Social; b) fatores essencialmente técnicos: p. ex. os meios de comunicação, as terras e vias fluviais públicas, as ferrovias, o telégrafo.


Principais características da Burocracia

Na obra de Max Weber ele descreve a forma pela qual se dá o funcionamento da


Burocracia Moderna, conforme as seguintes características:

A atuação dos agentes e as regras de competência oficiais estão fixadas em regulamentos impessoais e abstratos (leis ou normas administrativas) – Divisão sistemática do trabalho.

O pressuposto para a existência de uma organização burocrática é a existência de regras abstratas às quais estão vinculados o detentor do poder, os órgãos e agentes públicos, assim como população.

A consequência disso é que as funções administrativas regulares necessárias aos fins da estrutura burocrática são distribuídas de forma fixa como deveres oficiais. Além disso, a autoridade para a emissão de ordens necessárias à execução das funções é distribuída de forma estável e esta autoridade é delimitada pelas normas relacionadas com os meios de coerção à disposição dos funcionários ou autoridades.

Em virtude disso, são tomadas, também, medidas sistemáticas para a realização regular e contínua dos deveres administrativos. Logo, somente as pessoas qualificadas (cujos requisitos estão previstos em regulamento geral) são empregadas. E as ordens somente são legítimas quando quem as emite não ultrapassa os limites impessoais fixados na lei.

Noutras palavras, a pessoa que representa a autoridade ocupa um cargo e, por isso, está subordinada a uma ordem impessoal e que irá orientar as suas ações. E isso vale não apenas para os funcionários, mas, inclusive, para o presidente eleito de um país.


No ponto relativo à competência, Weber diz que isso implica:

a) Uma esfera de obrigações no desempenho das funções, diferenciadas como parte de uma sistemática divisão do trabalho; b) atribuição ao responsável da necessária autoridade para desempenho das funções; c) definição clara dos instrumentos necessários de coerção e limitação de seu uso a condições definidas. Uma unidade organizada de tal forma que no exercício da autoridade será denominada órgão administrativo.


Isso significa que o funcionário ingressará na estrutura burocrática e se deparará com uma divisão sistemática e racional do trabalho, cujas rotinas e procedimentos são padronizados por regras impessoais e abstratas.

O conhecimento destas regras significa um aprendizado técnico especial, a que se submetem esses funcionários. Essas regras podem ser técnicas ou normas jurídicas e para a sua aplicação racional é imprescindível a especialização do agente contratado.


Hierarquia e Subordinação

A estrutura burocrática consiste num sistema ordenado de mando e subordinação. Postos superiores supervisionam os postos inferiores. Esse sistema permite aos governados a possibilidade de recorrer de uma decisão proferida por autoridade inferior a uma autoridade superior. Este é o princípio da hierarquia.

É preciso salientar que o princípio da autoridade hierárquica de cargo está presente em todas as organizações burocráticas, sejam elas públicas ou privadas.


Documentação dos atos praticados

Os atos administrativos, normas e decisões tomadas são todos registrados em documentos. Na administração de um cargo público é imprescindível a documentação dos atos e o arquivamento destes na forma original ou de seu esboço. Neste ponto, Max Weber menciona a ideia de bureau como sendo a combinação de documentos com uma organização contínua de funções.


Desvinculação entre os membros do quadro administrativo dos meios de produção e administração

No modelo racional-legal é regra que o pessoal que compõem o quadro de funcionários devam estar completamente separados da propriedade dos meios de produção e administração. Isto significa que os funcionários do quadro administrativo “não fazem seus os meios de materiais de produção e administração. Estes são fornecidos em espécie ou em dinheiro, e o funcionário é obrigado a prestar contas”. Para Weber, a organização do serviço público separa a “repartição pública” do domicílio privado do funcionário. Por isso, a burocracia segrega a atividade oficial como algo distinto da esfera da vida privada. Isto significa que os equipamentos públicos e o dinheiro necessário ao exercício da atividade não se confundem com a propriedade privada da autoridade.


Treinamento especializado e completo do pessoal contratado para o exercício da atividade administrativa

A administração burocrática pressupõe treinamento especializado completo e constante. Isso ocorre cada vez mais em todas as estruturas burocráticas. Para Weber, ocupar um cargo público significa exercer uma “profissão” e esta conclusão decorre deste treinamento rígido a que se deve submeter o contratado para o exercício da função. É verdade, porém, que Weber não tem nenhum apreço pelo tipo de homem selecionado e formado pela rotina burocrática, tamanha é a mecanização, despersonalização e opressão dessa rotina. Weber identifica, assim, a burocracia com a racionalidade, e o processo de racionalização com o mecanismo, despersonalização e rotina opressiva. A racionalidade, nesse contexto, é vista como contrária à liberdade pessoal. Assim, Weber é um liberal nostálgico, sentindo-se na defensiva. Deplora o tipo de homem que a mecanização e a rotina da burocracia selecionam e formam. O profissional limitado, certificado, examinado publicamente, e pronto para um posto e carreira. Seu anseio de segurança é equilibrado pelas suas ambições moderadas e ele é recompensado pela honra do status oficial. Esse tipo de homem é deplorado por Weber como uma criatura de rotina limitada, carente de heroísmo, espontaneidade humana e inventividade. A despeito da observação acima, o treinamento e a especialização constantes têm a finalidade de tornar cada vez mais eficiente o exercício da função administrativa.


Dedicação plena do funcionário contratado ao exercício da função pública - Profissionalização

A criação e o desenvolvimento de um cargo público pressupõem que o funcionário a ser contratado, de forma livre, venha a se dedicar plenamente à atividade oficial, muito embora seja delimitado o tempo exigido para a sua permanência na repartição. Importante mencionar que antigamente era exatamente o inverso que ocorria, pois a atividade administrativa ou os negócios oficiais eram considerados como uma atividade secundária do ocupante do cargo. Como dito no item anterior, a ocupação do cargo é uma profissão, em razão do treinamento rígido que demanda toda a capacidade de trabalhos durante longo período de tempo. As funções exercidas também têm natureza de dever. Além disso, via de regra, o cargo ocupado pelo contratado tem natureza vitalícia. Isto significa que há garantias jurídicas contra o afastamento ou a transferência arbitrária, ou seja, estas garantias servem simplesmente para assegurar uma demissão rigorosamente objetiva de deveres específicos ao cargo, livre de considerações pessoais.

Importante mencionar que o contratado irá desempenhar as suas funções mediante uma retribuição pecuniária, assim como receberá pensão na velhice. O salário é medido de acordo com a hierarquia ou tipo de função.

Por fim, o funcionário se prepara para uma carreira dentro da ordem hierárquica do serviço público, na qual existe um sistema de promoção fundamentado na antiguidade ou merecimento, ou em ambos e essa promoção depende do julgamento dos superiores. Isto significa que o funcionário está sujeito a uma rigorosa e sistemática disciplina, inclusive sobre o controle de seu desempenho das funções.


Vantagens Técnicas da Organização Burocrática

Weber salienta que o motivo fundamental para o progresso da estrutura burocrática se deve sempre à sua superioridade puramente técnica sobre qualquer outra forma de organização. Para ele, o “mecanismo burocrático plenamente desenvolvido compara-se às outras organizações exatamente da mesma forma pela qual a máquina se compara aos modos não-mecânicos de produção”.

São apontadas algumas vantagens deste modelo de gestão, tais como: precisão, velocidade, clareza, conhecimento dos arquivos, continuidade, discrição, unidade, subordinação rigorosa, redução do atrito e dos custos de material e pessoal. Isso significa que o trabalho nesse sistema é mais preciso, bem como mais barato do que o serviço honorífico não-remunerado formalmente.

A economia mercantil capitalista exige que os negócios oficiais sejam feitos com precisão, sem ambiguidades, de modo contínuo, e com a maior velocidade possível. É apontado ainda que o aumento da velocidade das comunicações públicas redunda numa constante pressão para que a atuação e a reação administrativa tenha cada vez mais um ritmo intenso. E a otimização deste ritmo de reação somente se dá numa estrutura burocrática. Com efeito, em razão do Princípio da Especialização das funções administrativas que permite uma abordagem exclusivamente objetiva dos casos, as tarefas são distribuídas aos funcionários especialistas que, pela prática constante, aprendem sempre mais e mais. Os assuntos são tratados, portanto, segundo regras calculáveis e de modo impessoal. A impessoalidade do modelo burocrático significa o afastamento de práticas permeadas pelo subjetivismo das relações pessoais, sem favorecimento de pessoas específicas. Significa, ainda, que os atos administrativos praticados devem obediência à lei e não ao interesse pessoal do agente. Tanto os membros da sociedade como os agentes públicos obedecem à regra impessoal estabelecida. No que tange à calculabilidade dos resultados, tem-se que é exigência da cultura moderna. Segundo Weber a natureza da estrutura burocrática se desenvolve melhor à medida em que ela se torna “desumanizada” (sine ira ac studio), pois elimina dos negócios o amor, o ódio, e todos os elementos pessoais e irracionais que não permitem o cálculo. A experiência tende a mostrar universalmente que o tipo burocrático mais puro de organização administrativa – isto é, o tipo monocrático de burocracia – é capaz, numa perspectiva puramente técnica, de atingir o mais alto grau de eficiência e neste sentido é, formalmente, o mais racional e conhecido meio de exercer dominação sobre os seres humanos.

Com a complicação e a especialização da cultura moderna, mais se torna exigível a presença do perito despersonalizado estritamente objetivo, sendo deixada de lado a antiga estrutura social onde tinha lugar o mestre movido pela simpatia e pessoalidade.

É neste cenário do modelo racional-legal, portanto, que foram estabelecidas as bases para a administração de um Direito racional e sistematizado, na medida em que a interpretação da lei passa a ser racional e lastreada em conceitos formais. Em virtude disso, não há mais lugar para a solução dos casos pela “revelação” (profecia ou ordálio), ou seja, não se aceita a justiça “carismática”. Sente-se na concepção weberiana a preocupação fundamental de identificar um modelo de organização capaz de garantir o exercício efetivo da autoridade racional-legal. Essa preocupação, segundo parece, vai levar a uma caracterização tão minuciosa e definida das relações das pessoas que devem fazer funcionar a organização (os funcionários) dentro da estrutura administrativa, que, praticamente, não deixa lugar para o informal, o irracional e o arbitrário e transforma um padrão descritivo ideal de critérios e relações em padrão prescritivo. É que o conceito de “igualdade perante a lei” e as garantias legais contra o arbítrio estatal exigem a objetividade de administração, com racionalidade, em detrimento dos antigos sistemas carismático ou patrimonialista.

Em suma, “para Weber, a racionalidade da burocracia relaciona-se com a adequação dos meios em busca do máximo de eficiência. A burocracia representa um modelo de organização eficiente por excelência para a resolução de problemas na sociedade, pois se baseia no calculo”.


Críticas ao modelo burocrático

Robert King Merton, ao tratar das disfunções da burocracia, inicia sua análise do tema dizendo que são enfatizados os resultados positivos e as funções desempenhadas pela burocracia, sem que se considerem as pressões internas que afetam as suas estruturas. “A sociedade, em grande parte, contudo, realça as imperfeições da burocracia, como se deduz do fato de que a palavra ‘burocracia’ se converteu em um insulto.”

O próprio Weber identificou no modelo alguns vícios, o primeiro deles diz respeito à tendência natural da estrutura burocrática a uma ausência de transparência, porquanto no seu entender a burocracia sempre busca aumentar a superioridade daqueles que possuem a informação sobre o seu próprio funcionamento, mantendo em segredo seu conhecimento e as suas intenções. Ele salientou que “A administração burocrática tende sempre a ser uma administração de ‘sessões secretas’: na medida em que pode ocultar seu conhecimento e ação da crítica.”Esta falta de transparência e o conhecimento técnico decorrente da própria atividade administrativa é um instrumento essencial da luta pelo poder e na dominação. Outro ponto que é preciso salientar é o aspecto da “obediência”. Para Weber, a burocracia é uma forma de administração na qual a obediência é utilizada como um meio para a realização de um determinado fim, uma vez que a observância da norma ou da ordem é tida como a melhor maneira para que o objetivo estabelecido fosse alcançado. Isto significa que ao obedecer a ordem o indivíduo não questiona a sua racionalidade ou moralidade, tendo em vista a sua posição na hierarquia administrativa. Cumpre-se a ordem sem discussão. “Neste sentido, os guardas nazistas nos campos de concentração justificaram suas atrocidades inenarráveis porque, como disseram, ‘obedecíamos às ordens.”

Para Merton, a estrutura burocrática exerce sobre o funcionário uma pressão para que ele se torne “metódico, prudente, disciplinado”. É que o funcionamento satisfatório da máquina administrativa depende de um alto grau e confiança na postura e conduta dos funcionários. Isto significa que eles deverão se amoldar às responsabilidades e obrigações que lhes são atribuídas. Neste processo, a submissão à norma, que antes era apenas um meio, passa a ser um fim em si mesma, ou seja, um valor instrumental se torna um valor final e isto surge na vida do burocrata como um valor imediato.

A consequência disso é a rigidez e a incapacidade de se ajustar às circunstâncias imediatas (o que Merton chamou de incapacidade treinada). Daí vêm o formalismo e o ritualismo, como apego exagerado às formalidades. Isso pode chegar ao ponto em que é tamanha a observância das formas que os próprios objetivos da organização deixam de ser atingidos. Um produto extremo desse processo de deslocamento dos objetivos da organização é o burocrata ‘virtuoso’ que não esquece, jamais, nem uma só das normas relativas a seu cargo e que, portanto, é incapaz de atender a muitos de seus clientes. Outra crítica apontada por Merton diz respeito ao “espirito de grupo” que se desenvolve entre os funcionários de uma mesma estrutura burocrática. Este esprit de corps levam os funcionários, via de regra, a preferir a defesa de seus interesses particulares em detrimento de dar assistência ao público e aos chefes superiores eleitos. E esses interesses do grupo tendem a se chocar sempre com qualquer nova ordem que elimine ou diminua a certeza das vantagens estabelecidas. Essa é uma forma de resistência dos burocratas às mudanças.

No que concerne à impessoalidade, inerente à toda estrutura burocrática, ela pode redundar, muitas vezes, num tratamento categorizado e estereotipado dos casos levados a seu conhecimento. Este tipo de tratamento não se amolda às circunstâncias especiais e individuais dos casos. Não por acaso a impessoalidade, muitas vezes, pode significar arrogância, frieza, rispidez dos funcionários. Um ponto importante a ser dito, também, é concernente à determinação unilateral de conduta administrativa por partes dos superiores, o que teria por consequência a limitação da capacidade de iniciativa dos subordinados e isto redundaria num mecanicismo da burocracia e, por conseguinte, na redução da eficiência administrativa naquelas situações em que se exige uma flexibilidade e capacidade de adaptação do funcionário.Das críticas acima apontadas é possível concluir que dentro das próprias premissas do modelo em análise estão as sementes que podem degenerá-lo e torná-lo ineficiente.


Conclusão

Este breve estudo denotou que o sistema capitalista de produção tornou imperioso o surgimento do modelo burocrático Weberiano, como acima analisado. E isto, em verdade, foi uma verdadeira evolução, considerando-se os demais modelos de gestão patrimonialista e carismático, na medida em que tem por finalidade uma gestão administrativa racional, calcada na lei impessoal e abstrata, afastando o subjetivismo, a ausência de procedimentos e de controle. O Estado Moderno e Contemporâneo, em atendimento aos anseios do capitalismo, desenvolveram ainda mais a máquina burocrática, à vista das vantagens inerentes à burocracia, tais como: precisão, velocidade, clareza, conhecimento dos arquivos, continuidade, discrição, unidade, subordinação rigorosa, redução do atrito e dos custos de material e pessoal. Isto, inegavelmente, são pressupostos de um funcionamento eficiente da gestão.

A legalidade e impessoalidade, bem como o controle das atividades e a responsabilidade são princípios ínsitos à atuação administrativa contemporânea.

Contudo, as críticas ao modelo Weberiano, denotam que estes mesmos requisitos que promovem a eficiência, contêm em seu cerne, a capacidade de se transformarem em pressupostos disfuncionais da burocracia, podendo provocar a inflexibilidade da conduta administrativa, a resistência às mudanças, o mecanicismo, o formalismo, a incapacidade de adaptação às circunstâncias novas e às peculiaridades dos casos levados a seu conhecimento, com graves impactos na própria eficiência deste modelo.

Talvez por estes motivos o modelo burocrático vem sofrendo sérias críticas ao longo de décadas, especialmente no tocante à sua propalada eficiência e, por isso, vem perdendo cada vez mais espaço para modelos de gestão que tenham um enfoque diverso.

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